Manifesto editorial

Sobre a Meridional e o espaço geocultural em que se situa

A Europa nasceu no Mediterrâneo. A oliveira é a sua fronteira.

Predrag Matvejevitch, Breviário Mediterrânico do (1987).

O nosso território referencial é o da milenar oliveira que, da Arménia, se expandiu de lés a lés, de Sul para Norte, por toda a bacia mediterrânica. Mas também o da figueira, da amendoeira, da alfarrobeira, da vinha, do rosmaninho, do sal, das especiarias e dos perfumes.

Este conceito adequa-se ao Mediterrâneo, sobre o qual o autor escreveu um livro fundamental – O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na época de Filipe II (1995). Complexas, portanto, as civilizações do Mediterrâneo! Na verdade, retomando o Breviário Mediterrânico, somos confrontados com as antonímias mediterrânicas ao longo dos tempos: livros sagrados de reconciliação e amor que resultaram em guerras religiosas; espírito ecuménico (como defendem hoje várias organizações como O Diálogo das Civilizações, da ONU, cujo 1º alto representante foi o Dr. Jorge Sampaio, a convite de Ban Ki-Moon) versus ostracismo fanático; a alegria dionisíaca e o rochedo de Sísifo; O Oriente e o Ocidente; o Norte e o Sul; a cristandade e o islão. Estas antonímias não só persistem como se têm vindo a agudizar.

A margem norte do Mar Mediterrâneo tem vindo a atrair gente de países do hemisfério sul, sobretudo dos países envolvidos em conflitos interétnicos genocidas ou mergulhados no fundamentalismo aterrorizador. No Mediterrâneo, assistimos hoje a uma nova odisseia sem Ulisses, sem Ítaca, sem Penélope, sem Telémaco nem Argos. Uma odisseia que transformou o mar de Homero num cemitério de almas abandonadas na escuridão. Entretanto, a norte, a Europa discute números, ergue muros e arame farpado. Mas lá está a ilha de Lesbos, que deixou de ser terra de poetas para se tornar num campo de refugiados à espera de coisa nenhuma. E no contíguo Mar Negro outras tragédias emergiram.

Sendo sobre o Mediterrâneo, na Meridional o Algarve terá sempre o seu lugar porque entendemos que a luta contra a sua condição periférica é uma causa que cada um de nós deve assumir numa terra abandonada pelo poder central há séculos perante a passividade poder local. A diversidade de géneros, de sensibilidades e de pontos de vista a incluir nesta revista – ensaios, crónicas, poesia, recensões de livros de autores do Mediterrâneo e, em particular, do Algarve – traduz a ampla variedade de espécies de oliveiras que aqui se encontram e se dão.

Entendemos que esta revista deveria ser editada no Algarve por uma pequena editora que se rege por padrões de qualidade na seleção de livros a publicar, e com a qual nos identificamos. A Sul, Sol e Sal, editora sedeada em Loulé, foi a nossa primeira e única escolha. É difícil ser editor independente no Algarve e no resto do país (o que tem implicações, por exemplo, na distribuição): queremos fazer desta colaboração, também, apoio mútuo.Por ser uma revista com arbitragem científica, o trabalho de organização dos conteúdos é complexo e moroso; mas é necessário para garantir a sua qualidade. Todos os textos, exceto os dos autores convidados, são sujeitos a avaliação externa no sistema de blind review.

É preciso colocar esta revista no mercado, é preciso divulgá-la junto de instituições universitárias portuguesas e estrangeiras. É preciso definir uma estratégia de identificação da massa crítica do Algarve (escassa, infelizmente) com a Meridional, que continuará a ser impressa. Cremos que, hoje em dia, no instável mundo virtual, o impresso é o único capaz de resistir aos ataques cibernéticos. Além do mais, o papel tem cor, cheiro e textura, convoca todos os sentidos. Podemos ler em voz alta e até comer folhas em branco.Ainda assim, a sua divulgação online permitirá despertar o interesse de muitos leitores de diferentes qualidades, por isso se estabeleceu um endereço virtual: https://revistameridional.pt/

About Meridional and the geocultural space in which it is located

Europe was born in the Mediterranean. The olive tree is its frontier, wrote the Bosnian writer Predrag Matvejevitch in the Mediterranean Breviary of (1987).  Our referential territory is that of the millenary olive tree that, from Armenia, has expanded from lés to lés, from south to north, throughout the Mediterranean basin. But also that of fig tree, almond tree, carnalia, vineyard, rosemary, salt, spices and perfumes. The geographer Portuguese Orlando Ribeiro refers in his work Portugal, The Mediterranean and the Atlantic (1945) that “in no other space of the Globe the relations of geography and history form, as in the Mediterranean, a thick and indissoluble plot”.

Fernand Braudel, in the Grammar of Civilizations (1987), argued that civilizations are spaces delimited by permeable borders, are societies that carry a vision of the world conditioned by internal tensions, are economies configured by resources and their management, are collective mentalities based on dialectical tradition / innovation. This concept is suited to the Mediterranean, on which the author wrote a fundamental book – The Mediterranean and the Mediterranean World at the time of Philip II (1995).  Complex, therefore, the civilizations of the Mediterranean!

In fact, resuming the Mediterranean Breviary, we are confronted with the Mediterranean antonymies throughout the ages: sacred books of reconciliation and love that resulted in religious wars; ecumenic spirit versus fanatical ostracism; Dionysian joy and the rock of Sisyphus; East and West; North and South; Christianity and Islam. These antonymies not only persist but have been sharpening. The northern shore of the Mediterranean Sea has attracted people from countries in the southern hemisphere, especially from countries involved in genocidal interethnic conflicts or steeped in terrifying fundamentalism.

In the Mediterranean, today we are witnessing a new odyssey without Ulysses, without Ithaca, without Penelope, without Telémaco or Argos. An odyssey that turned Homero’s sea into a graveyard of abandoned souls in darkness. Meanwhile, to the north, Europe discusses numbers, erects walls and barbed wire. But there is the island of Lesbos, which has ceased to be a land of poets to become a refugee camp waiting for nothing. And in the adjacent Black Sea other tragedies emerged.

Being on the Mediterranean, in Meridional the Algarve will always have its place because we understand that the fight against its peripheral condition is a cause that each of us must assume in a land abandoned by the central power for centuries before the local power passivity.

The diversity of genres, sensitivities and points of view to be included in this magazine – essays, chronicles, poetry, book reviews by authors from the  Mediterranean and, in particular, the Algarve – translates into the wide variety of olive species that are here and take place.

We believe that this magazine should be edited in the Algarve by a small publisher that is ruled by quality standards in the selection of books to be published, and with which we identify. Sul, Sol e Sal, an editor based in Loulé, was our first and only choice. It is difficult to be an independent editor in the Algarve and in the rest of the country (which has implications, for example, in distribution): we want to make this collaboration, also, mutual support.

Because it is a journal with scientific arbitration, the work of organizing the contents is complex and time consuming; but it is necessary to ensure its quality. All texts, except those of the invited authors, are subject to external evaluation in the blind review system.

It is necessary to put this magazine on the market, it is necessary to disseminate it to Portuguese and foreign university institutions. It is necessary to define a strategy for identifying the critical mass of the Algarve (scarce, unfortunately) with Meridional, which will continue to be printed. We believe that nowadays, in the unstable virtual world, print is the only one capable of resisting cyberattacks. What’s more, the paper has color, smell and texture, summons all the senses. We can read aloud and even eat blank leaves.

Still, its online dissemination will  allow to arouse the interest of many readers of different qualities, so a virtual address has been established: https://revistameridional.pt/